Quando as musicas românticas que tocavam em meu rádio começaram a me irritar profundamente eu decidi fazer alguma coisa. Agarrei meu Blackberry e digitei preguiçosamente o número já conhecido. Eu não tinha pressa alguma, tomar alguma atitude já era um passo deveras atrevido para com a minha vontade mínima de largar meu chocolate meio-amargo e minha taça de vinho tinto naquela noite fria. Tocou, tocou e nada. Caminhei até a varanda de meu apartamento e o vento frio arrepiou-me. Agarrei o casaco que havia usado mais cedo naquele dia e me sentei no chão frio, com o celular na mão. Não devia demorar, talvez uns cinco minutos… Foi bem menos que isso, logo o celular vibrou entre meus dedos. Se eu não conhecesse bem a Nina eu estranharia o fato de um homem estar retornando a minha ligação em vez dela, mas nossa amizade completou nove anos, posso dizer que nada mais na Nina me surpreende.
- Você é a Julia? – Ele me perguntou. Sua voz era grave como um trovão e a frieza em seu tom me deu calafrios. Ou foi o vento novamente, não sei ao certo.
- Sim, sou eu. Onde ela está? – Meu tom não era de preocupação, mas a frieza dele fez minha voz sair um pouco estranha, talvez por isso ele tenha me dito para me tranqüilizar.
- Ela está bem, quero dizer…agora parece melhor – Ele suspirou. Ouvi-o resmungar algo como “não sei como me meto nesse tipo de coisa” baixinho do outro lado.
- Onde ela está? – Repeti, já que ele não respondeu o que eu queria ouvir. Acho que fui um pouco estúpida, mas se ele ia ser rude eu seria também, não quero nem saber.
- … – Ele suspirou de novo – Está em minha casa, espalhada em meu sofá mais do que eu gostaria.
- Vou buscá-la, on…
- Acho bom mesmo, minha casa não é hotel – Ele me cortou, filho de uma puta sem educação!
- Onde fica a sua casa? – Fiz questão de ser extremamente rude ao dizer isso e mesmo com as palavras vazando pelos buraquinhos entre meus dentes cerrados acho que consegui.
- Chanson com a Miragaia, número 31. Sabe chegar? – Ele foi um pouco menos rude, acho que assustei o pobre coitado. Mereceu também.
- Google Maps serve pra isso – Desliguei. Eu não dou trégua mesmo.
A casa dele era longe, bem longe, me perdi várias vezes. Eu não conheço nada da Zona Leste e me perguntei o caminho todo o que raios a Nina fazia por esses lados. Era curiosidade, não surpresa. A Nina não me surpreende mais. Comecei a me desesperar quando me vi sozinha em um lugar nada amigável, não sou muito corajosa, eu só faço barulho e nunca vou para a ação. Cão que ladra não morde. Quando a musica do rádio foi interrompida pelo viva voz eu quase chorei de alegria. Quase.
- E ai Ju! Estou saindo do trabalho só agora, tava afim de tomar uma cerveja, vamô? – Jesus me enviou Rafael naquele momento. Ele trabalha na Zona Leste, eu estava com uma sorte imensa.
- Rafa socorro!
Bom, para encurtar a história o Rafa foi o meu anjo salvador, deixou a cerveja para outro dia e foi atrás de mim. Eu estava ridiculamente perto do escritório dele, que fica em uma das principais vias da região. Me senti uma anta, mas o Rafa não tirou um saro de mim, poderia ter feito, eu teria, mas ele não fez. Anjo! Ele entrou no meu carro e fomos juntos atrás da Nina. No caminhou eu contei o que eu fazia por ali, que era o único interesse dele aparentemente. Expliquei que a Nina tinha me ligado bêbada de novo e pediu para eu ir buscá-la, mas que ela não tinha idéia de onde estava, por isso eu esperei um tempo até ligar de volta, e foi nesse momento que o homem mais estúpido da face da terra me ligou do telefone dela.
- É aqui – O Rafa não me contou nenhuma novidade, eu podia ver bem o número 31 metálico que refletia a luz do poste. Mas era um prédio – Qual o apartamento? – E eu sei lá! Aquele ser não me disse que era um prédio! Deve ter alguma coisa a ver com eu ter desligado na cara dele, mas não importa, ele não me disse, ele que foi negligente.
- Vamos até a portaria, eu vou ligar para a Nina e perguntar.
Eu não precisei fazer isso, quando nos aproximamos do prédio vi um homem encostado na parede com a maior cara de tédio que eu já presenciei. Ele levantou o olhar para nós e perguntou se eu era a Julia. Eu reconheci aquele tom, era ele sem dúvidas. Sem apresentações ou qualquer outra coisa ele nos guiou até seu apartamento no sétimo andar e logo ao abrir a porta da frente eu pude ver a Nina. Antes não a tivesse visto, estava péssima. Eu já estava farta de ver a Nina nesse estado, todo fim de semana ela extrapolava assim e eu tinha que correr ao socorro dela. Era melhor quando eu agia da mesma maneira que ela, assim pelo menos eu me divertia. Mas agora eu era uma pessoa diferente, enquanto a Nina só parecia piorar. Ela estava na casa de um completo estranho, na Zona Leste, completamente bêbada, com a roupa suja, o cabelo zoneado, a maquiagem borrada e caída igual pudim no sofá. Ajoelhei-me ao lado do sofá e passei a mão em seus cabelos, ela me olhou e sorriu embriagada.
- Sempre minha heroína.
- Não por escolha – Respondi enquanto tentava fazê-la sentar. Ouvi o Rafa perguntar para o freezer se ela tinha vomitado, e ele respondeu que tinha bastante, e logo depois adormeceu. Percebi o balde ali do lado, era nojento. Gente dando PT é sempre nojento. Entretanto era a Nina, e a Nina é minha amiga, eu precisava estar ali apesar do nojo.
- Você demorou demais pra chegar – Ele não tinha aprendido a ser agradável desde a ultima vez que nos falamos – Eu quero ir dormir.
- Vai então, eu não to ligando – Esse cara me tirava do sério.
- Ju! – O Rafa falou em tom de reprovação e olhou para o freezer com cara de “desculpe por isso”. Que raiva que eu fiquei do Rafa nessa hora, o freezer é que tem que pedir desculpas pela falta de modos dele – Ela mora bem longe, e se perdeu para chegar aqui – Ele me dedurou. Vi um sorriso sarcástico nascer no rosto do freezer, droga, o Rafa deu motivos para ele tirar uma com a minha cara!
- Era de se esperar. – Era de se esperar?! Quem é ele pra falar isso? Nem me conhece! Eu ia retrucar com uma grosseria do tamanho do Himalaia, mas a Nina caiu e eu fui ajudá-la a se ajeitar.
- Acho melhor dar um banho nela, tudo bem? – O Rafa é uma pessoa muito gentil e amável, é impossível dizer não para ele. Nem o freezer resistiu.
Os dois seguraram a Nina e fomos até o banheiro. Eu pedi que eles saíssem e dei um banho nela, que não parecia saber o que estava acontecendo. Deixei ela ali sentada na banheira e escorreguei pela parede até sentar-me no chão de azulejo. Só então percebi que eu também estava cansada, deviam ser por volta das quatro horas e eu estava de pé desde as seis. Observei o banheiro, era muito bonito, nem parecia casa de homem solteiro. Se é que ele era solteiro né… pensei que talvez fosse gay, as chances não são pequenas. A Nina deu uma escorregada e eu corri pra acudi-la, apressando o banho o máximo que pude. Gritei o nome do Rafa e pedi que ele arranjasse roupas para ela enquanto as dela secavam. Ele voltou com uma camiseta que ficou gigante na magrela da Nina. Eu a deitei na cama do freezer sem nem pedir, ela tinha adormecido e eu não queria acordá-la. Quando voltei para a sala eu tive a surpresa de encontrar o Rafa e o freezer sentados no bar tomando shots que alguma coisa que eu não consegui enxergar o que era e rindo bastante. Rindo. O freezer estava rindo. O Rafa faz milagre, eu falo e ninguém acredita. Não demoraram a perceber a minha presença, foi só me ver que o freezer fechou a cara. Que raiva me deu.
- Como ela está Ju? – O Rafa estava preocupado de verdade, eu pude notar claramente pelo seu rosto. Tão bonitinho.
- Dormindo.
- Era o que eu queria estar fazendo também – Grandissíssimo filho da puta!
- Vamos embora agora Rafa, pega as coisas da Nina – Eu disse com vontade. Não estava planejado ir embora agora, eu queria que ela descansasse mais, mas eu não agüentaria continuar ali na presença desse ser rude.
- Deixa de ser besta, agora que a sua amiga dormiu deixa ela lá mais um pouco.
- Aaaaa mas isso vai atrapalhar seu sono bela adormecida! – Ok eu reconheço que perdi um pouco o controle, eu estava com muita raiva.
- Não seja mal educada menina, estou ajudando sua amiga e você está em minha casa, esqueceu? – Ele falou rude, mas sem erguer o tom de voz. Já eu sabia que eu estava gritando.
- Baixa a bola moleque, eu agradeço por cuidar dela, mas isso não lhe dá direito de ser estúpido.
- Você é quem está gritando.
- E você é arrogante!
- O que uma coisa tem a ver com a outra?
- Não discutam… A Julia só está agindo assim porque está cansada, e o Arthur só está agindo assim porque passou por uma situação péssima hoje – Eis o nome do freezer, Arthur. Tava explicado, ele tem o rei na barriga – Não fiquem descontando um no outro. Venha beber um pouco conosco Ju – Rafa Rafa, sempre tentando acalmar a situação. Ele conseguiu parar a briga, como eu disse, é impossível dizer não para ele. Mas ainda assim eu estava explodindo de raiva.
Sentei com eles por um tempo e tomei uns dois shots do que eles bebiam, que depois eu descobri ser vodka. Conversamos por um tempo, quero dizer, eles conversaram, eu estava brava demais para falar qualquer coisa. Já o freezer parecia super a vontade em toda sua arrogância. Cerca de vinte minutos depois o Rafa resolveu ir dar uma olhada na Nina, se ela já estivesse acordada nós iríamos embora, esse foi o acordo que eu propus.
- Desculpa qualquer coisa – Segunda surpresa do dia. O freezer me soltou uma dessas logo depois do Rafa sair da sala – Eu não estou num bom dia, acabei pondo todo meu ressentimento em cima de você e da sua amiga – Ele parecia realmente arrependido, e isso acabou afastando a minha raiva não sei bem como.
- Aah, tudo bem… – Eu não sabia o que responder. Só sabia que eu não ia pedir desculpa, aaa não ia mesmo. Passamos um tempo num silêncio bem constrangedor, até que eu me lembrei de uma questão ainda não respondida – Como foi que a Nina veio parar aqui? – Ele me observou por uns 3 segundos que para mim, pareceram durar uma eternidade.
- Uns amigos me convenceram a ir a um bar, dizendo que beber ajuda esquecer. Ajuda nada! Mas enfim, isso não vem ao caso. Enquanto eu estava por lá eu me encontrei com sua amiga várias vezes, o suficiente para me familiarizar com o rosto dela. Com o passar da noite eu me irritei de ficar por lá e quando eu estava indo embora eu vi o barmen acudindo-a. Aproximei-me e ele pediu para que eu ficasse de olho nela, pois ela estava sozinha. Minha noite já estava arruinada, não custava nada, mas eu me senti mal por deixá-la largada em cima do balcão e decidi trazê-la pra casa e ligar para alguém. Foi ai que liguei pra você.
- Foi legal da sua parte, obrigada – Eu agradeci com o coração, a Nina já tinha ido parar na mão de tanta gente suja e desonesta, eu precisei admitir que ele tinha sido bem bacana – Você teve um dia difícil então? – O silêncio estava me incomodando.
- Você não tem idéia – Ele suspirou – Descobri que a minha namorada me traia, e isso já tinha um tempo. – Por essa eu não esperava. Primeiro eu pensei que era porque ele era grosseiro e rude, mas então lembrei que isso tinha sido só um erro de julgamento meu, ele estava agindo assim porque estava machucado, obvio que ia ficar com a mão cheia de pedras.
- Humm – Eu nunca sei o que dizer, eu não sei consolar pessoas, eu só sei resgatá-las no pós noitada – Você gostava muito dela? – Só percebi quão idiota essa pergunta era depois de fazê-la, acontece.
- Eu achava que sim, mas no fundo eu acho que não gostava tanto assim. Meu orgulho foi o maior ferido dessa história – Ele me olhou nos olhos e deu um meio sorriso – Sabe, eu lhe achava uma tremenda egoísta até alguns minutos.
- Eu ainda lhe acho um rude, mas um rude legal – Eu me permiti rir, ele riu levemente também.
O Rafa voltou para a sala, disse que a Nina tinha acordado. O Arthur disse que podíamos ficar o quando quiséssemos, mas eu realmente achei melhor irmos embora. Juntei as coisas da Nina enquanto Rafa e Arthur a ajudavam a descer até o estacionamento. Juntei-me a eles em frente ao carro, eles já tinham colocado a Nina no banco de trás e agora conversavam a minha espera. Os dois se despediram como se já se conhecessem há anos, acho incrível como homens fazem amizade com facilidade. Trocaram telefones e já combinavam de jogar futebol no domingo a tarde. Homens. Convidei o Rafa para dormir em casa, ele não estava bem pra dirigir. Agradeci mais uma vez o Arthur por tudo que fez pela Nina.
- Não foi nada, para ser sincero conhecer vocês foi a única parte boa do meu dia – Ele sorriu. Agora eu já estava simpatizando com ele, não sei se era por eu ter bebido ou por ele ser bacana mesmo – Ela está indo com a minha camiseta, você vai precisar me devolver depois.
- Eu mando pelo Rafa quando vocês forem jogar futebol.
- Não, eu vou buscar na sua casa, quero ver se é tão longe assim ou é você que é uma perdida mesmo – Ele sorriu com sarcasmo e eu fechei a cara. Freezer metido a sabe tudo. Mas depois eu não pude deixar de deixar meu telefone e dizer para ele ligar quando quisesse ir buscar. Lá em casa eu só tenho geladeira, um freezer até que seria bacana ok?…






